Uma questão que me acompanhou durante muito tempo, e que também apareceu durante a pesquisa sobre Pintura Mediúnica, diz respeito à técnica.
É necessário saber desenhar para desenvolver um trabalho com Pintura Mediúnica? Até que ponto o conhecimento artístico interfere naquilo que está sendo percebido? E será que aprender mais sobre desenho, pintura, cor e composição poderia acabar condicionando uma experiência que deveria acontecer de maneira espontânea?
Essas questões não surgiram apenas durante a pesquisa acadêmica. Elas também fizeram parte da minha própria experiência enquanto artista.
Quando observamos diferentes trabalhos de Pintura Mediúnica, percebemos rapidamente que não existe uma única maneira de produzir essas imagens. Há artistas que trabalham com pastel, outros com lápis, tinta, pintura digital e diferentes materiais. Alguns possuem formação artística; outros começaram praticamente sem experiência.
Durante as entrevistas que realizei para o TCC, isso ficou bastante evidente. Cláudio Gianfardoni, George Monteiro e Héreluz, por exemplo, reconheceram que suas formações contribuíram para o desenvolvimento de seus trabalhos. Rosa Teubl trouxe consigo conhecimentos adquiridos anteriormente com pintura em porcelana, enquanto Zantina relatou que, no início, seus desenhos eram bastante simples e que recebeu apenas algumas orientações básicas antes de continuar desenvolvendo sua prática.
Essa diversidade me parece importante porque coloca em questão uma ideia que às vezes acompanha a Pintura Mediúnica: a de que o conhecimento técnico diminuiria a espontaneidade do processo.
Com o tempo passei a compreender justamente o contrário.
A técnica não precisa determinar aquilo que será produzido. Ela pode simplesmente ampliar as possibilidades de dar forma ao que foi percebido.
Saber construir um rosto não determina qual rosto aparecerá. Conhecer anatomia não determina uma postura. Compreender cor não determina a cor que será utilizada. Esses conhecimentos oferecem recursos para que uma percepção encontre uma forma possível dentro da linguagem artística.
É como aprender um idioma. Quanto maior o vocabulário, maiores também são as possibilidades de expressão. Isso não significa que todas as palavras serão utilizadas, nem que aquilo que desejamos comunicar já estava determinado por elas. Na Arte acontece algo semelhante.
Do material à linguagem
Outro aspecto que me chamou atenção nas entrevistas foi perceber que a escolha do material nem sempre estava relacionada a uma orientação espiritual.
Ale dos Anjos, Zantina e Rosa Teubl utilizavam o pastel seco. Rosa relatava uma relação bastante direta com o material, inclusive utilizando os dedos durante o processo. Cláudio, George e Héreluz utilizavam a pintura digital, destacando principalmente sua praticidade e as possibilidades oferecidas por esse suporte. Quando perguntados sobre essas escolhas, os artistas afirmaram que elas haviam partido deles próprios.
Esse dado é simples, mas considero bastante significativo, porque nos lembra que existe um artista participando do processo.
Durante muito tempo, determinadas narrativas sobre Pintura Mediúnica deram bastante destaque a situações extraordinárias: pinturas realizadas rapidamente, trabalhos executados com as duas mãos, de olhos fechados ou reproduzindo estilos atribuídos a artistas já falecidos. Esses elementos aparecem inclusive na literatura espírita sobre o assunto.
São manifestações que pertencem à história dessa prática e possuem sua importância dentro dos contextos em que acontecem. Mas elas não esgotam as possibilidades da Pintura Mediúnica.
Quando comecei a olhar para o fenômeno a partir das Artes Visuais, outras perguntas passaram a me interessar também. Que linguagem esse artista desenvolveu? Por que escolheu determinado suporte? Como transforma uma percepção em imagem? O que acontece entre aquilo que ele percebe e aquilo que efetivamente consegue materializar?
É nesse intervalo que a técnica passa a ter, para mim, um papel importante.
Sensibilidade e técnica não precisam disputar espaço
Existe uma diferença entre utilizar a técnica para controlar uma experiência e utilizá-la para conseguir expressá-la.
Quanto mais fui desenvolvendo meu próprio trabalho, mais percebi que não precisava escolher entre sensibilidade e conhecimento artístico. Uma coisa poderia colaborar com a outra.
Inclusive, quando pensamos no próprio processo criativo de maneira mais ampla, essa separação começa a perder força. Fayga Ostrower fala da sensibilidade como uma das fontes da criatividade e também daqueles momentos em que algo inesperado participa da criação. O artista possui conhecimento, experiência e recursos técnicos, mas ainda assim permanece aberto ao que surge durante o processo.
Talvez essa relação seja ainda mais evidente quando trabalhamos com Pintura Mediúnica.
Posso conhecer anatomia e ainda ser surpreendido por um rosto. Posso compreender teoria das cores e perceber uma combinação que não teria escolhido inicialmente. Posso dominar determinado programa de pintura digital e ainda assim não saber, quando começo uma obra, exatamente onde ela irá terminar.
A técnica oferece recursos. A sensibilidade participa das escolhas. E a experiência acontece no encontro entre as duas.
Por isso, hoje não vejo o desenvolvimento artístico como uma ameaça à Pintura Mediúnica. Vejo como uma ampliação de possibilidades.
Não se trata de aprender a controlar aquilo que deve surgir. Trata-se de possuir cada vez mais recursos para dar forma ao que se apresenta.
Khalreon Ylron

