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Reflexão

Arte como caminho de autoconhecimento

Quando iniciei a pesquisa que resultou no meu Trabalho de Conclusão de Curso, escolhi um título que já carregava uma questão que vinha me acompanhando havia algum tempo: A Pintura Mediúnica como Processo de Autoconhecimento.

Não me interessava investigar somente como uma imagem mediúnica era produzida, quais técnicas eram utilizadas ou de que maneira outros artistas compreendiam suas experiências. Havia uma pergunta que atravessava todas essas questões: o que acontece conosco enquanto fazemos esse trabalho?

Porque uma pintura não revela apenas uma imagem.

Muitas vezes, o processo necessário para que ela exista também revela algo sobre quem a produz.

Ao pesquisar o conceito de autoconhecimento, encontrei em Jung uma compreensão que se aproximava daquilo que eu vinha observando na prática: conhecer a si mesmo não é alcançar uma resposta definitiva sobre quem somos. É um processo contínuo de voltar-se para dentro, reconhecer aspectos de si e ampliar gradualmente a consciência sobre a própria existência.

E foi justamente nesse ponto que a Arte começou a ocupar um lugar ainda mais importante na pesquisa.

Fayga Ostrower fala da sensibilidade como fonte da criatividade e observa que determinadas experiências artísticas podem nos colocar diante de dimensões profundas de nós mesmos. A obra não apenas comunica algo para quem a observa. O próprio processo criativo pode provocar no artista percepções sobre o mundo e sobre si.

Quando penso na Pintura Mediúnica a partir dessa perspectiva, o autoconhecimento deixa de ser apenas um possível resultado da obra pronta.

Ele começa muito antes.

Está no exercício de perceber.

Está na dúvida sobre aquilo que se percebe.

Está na necessidade de distinguir intuição, imaginação, expectativa e experiência mediúnica.

Está também nas inseguranças que aparecem diante da imagem, na confiança que precisa ser construída e na responsabilidade de reconhecer os próprios limites.

Minha trajetória com a Pintura Mediúnica acabou tornando isso bastante evidente. Por essa razão, quando estruturei o TCC, escolhi utilizar também uma narrativa autobiográfica. Ao revisitar minha própria caminhada, pude identificar acontecimentos relacionados à prática artística e espiritual que contribuíram — e continuavam contribuindo — para meu processo de autoconhecimento.

Isso também ajuda a compreender por que desenvolver a sensibilidade não significa simplesmente aprender a “ver” mais.

Às vezes significa aprender a observar melhor a si mesmo.

Quanto mais nos aproximamos de nossas próprias expectativas, medos, desejos e referências, mais condições temos de reconhecer aquilo que pode estar misturado à percepção. Nesse sentido, autoconhecimento e discernimento acabam caminhando juntos.

Durante a pesquisa, percebi que essa relação não aparecia somente na minha experiência. Quando os artistas entrevistados foram questionados sobre a importância da Pintura Mediúnica para o desenvolvimento humano, suas respostas, apesar das diferentes trajetórias espirituais e artísticas, convergiram para o autoconhecimento. Eles relacionaram a prática ao reconhecimento de uma dimensão espiritual, transcendental e multidimensional da existência e também à necessidade de atravessar processos internos profundos.

Uma das falas que encontrei durante as entrevistas sintetizava isso de maneira muito simples. Rosa Teubl dizia que a arte mediúnica vinha “de dentro”. Ao analisar sua resposta no TCC, destaquei justamente a necessidade de voltar-se para dentro e trabalhar as próprias questões para que o processo pudesse se tornar mais nítido.

Talvez esteja aí uma das razões pelas quais considero a Pintura Mediúnica muito mais do que uma técnica artística.

Não se trata apenas de aprender a desenhar um rosto, utilizar uma tinta, desenvolver uma percepção ou representar uma entidade espiritual.

Existe um caminho entre aquilo que sentimos, aquilo que percebemos e aquilo que conseguimos materializar.

E percorrer esse caminho também nos transforma.

Foi algo que pude reconhecer olhando retrospectivamente para minha própria trajetória. A Arte me levou à espiritualidade em determinados momentos; a espiritualidade modificou minha relação com a Arte; e ambas me obrigaram, repetidas vezes, a olhar para mim mesmo.

Por isso, quando hoje proponho o desenvolvimento da Pintura Mediúnica, não penso apenas na formação de alguém capaz de produzir imagens.

Penso na formação de alguém capaz de perceber a si mesmo enquanto aprende a perceber aquilo que está além de si.

Talvez seja justamente nesse encontro que a Arte deixe de ser apenas aquilo que fazemos e passe também a ser um caminho pelo qual podemos compreender um pouco mais quem somos.

Khalreon Ylron

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