Quando falamos em Pintura Mediúnica, é comum imaginar o artista apenas como alguém que recebe uma imagem e a reproduz. Como se entre aquilo que é percebido e aquilo que chega ao papel ou à tela não existisse ninguém.
Mas existe.
Existe um artista com uma história, uma sensibilidade, conhecimentos técnicos, inseguranças, referências e uma maneira própria de interpretar aquilo que percebe. E talvez uma das questões mais delicadas desse processo seja justamente compreender onde termina a percepção e onde começa a participação do artista.
Essa questão esteve presente na minha própria trajetória.
Quando comecei a rascunhar algumas das entidades que percebia, ainda havia muita insegurança. Enquanto o desenho se construía, surgiam confirmações que me faziam confiar um pouco mais na experiência. Depois vieram a mesa digitalizadora, as encomendas e, posteriormente, a graduação em Artes Visuais, que busquei também com o desejo de aprimorar tecnicamente o trabalho que já desenvolvia.
Esse percurso me fez perceber algo importante: desenvolver a técnica não anulava a percepção mediúnica.
Ao contrário, quanto mais recursos eu adquiria para desenhar e pintar, maiores eram as possibilidades de materializar aquilo que percebia.
Isso muda bastante a ideia de que, para uma pintura ser mediúnica, o artista deveria desaparecer durante sua execução.
Há processos em que isso pode acontecer de outra maneira. Existem relatos de médiuns que trabalham por incorporação e produzem obras rapidamente, atribuindo a execução diretamente ao espírito comunicante. Mas esse não é o único modo encontrado dentro da própria Pintura Mediúnica. Minha experiência se desenvolveu predominantemente de maneira consciente, assim como ocorre com outros artistas pesquisados no TCC.
Estar consciente, entretanto, coloca o artista diante de outro desafio: aprender a observar a própria interferência.
Nem toda imagem que surge internamente precisa ser entendida como uma comunicação espiritual. Imaginação, memória, expectativa, desejo e referências visuais também fazem parte de nós. Por isso, reconhecer o próprio trabalho como mediúnico e conseguir diferenciá-lo de outros processos criativos exige autoconhecimento, sinceridade consigo mesmo e responsabilidade com aquilo que se apresenta ao outro.
Talvez por isso eu não veja técnica e mediunidade como forças opostas.
A técnica oferece recursos para que a imagem encontre forma. A sensibilidade participa da maneira como ela é percebida. E o artista permanece no encontro entre essas duas dimensões, fazendo escolhas durante todo o processo.
Escolher uma cor é uma escolha.
Interpretar uma forma pouco nítida também.
Decidir como determinada luz será representada, corrigir uma proporção ou encontrar uma solução para algo que não se consegue reproduzir exatamente como foi percebido são ações do artista. Reconhecer essa participação não diminui a experiência mediúnica. Pelo contrário: impede que a autoria seja tratada de maneira simplista.
Durante a pesquisa, encontrei uma fala de Rosa Teubl que toca justamente nesse ponto. Para ela, as orientações sobre técnicas e materiais auxiliam na materialização da imagem. Essa palavra — materializar — me parece especialmente significativa.
Porque aquilo que percebo ainda não é a pintura.
Entre a imagem percebida e a obra final existe um processo.
E eu faço parte dele.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores responsabilidades do artista que trabalha com Pintura Mediúnica: não negar sua presença, mas conhecê-la suficientemente para perceber quando está conduzindo a imagem e quando precisa permitir que ela também o conduza.
Ao longo dos anos, compreendi que ser instrumento não significa ser ausente.
Significa estar presente o suficiente para perceber, consciente o suficiente para discernir e preparado o suficiente para dar forma àquilo que, até aquele momento, somente eu podia ver.
Khalreon Ylron

