Durante muito tempo, uma das perguntas mais frequentes que ouvi sobre a Pintura Mediúnica foi também uma das perguntas que levei para a pesquisa acadêmica: como saber se uma pintura é realmente mediúnica?
Parece uma pergunta simples, mas nunca encontrei para ela uma resposta igualmente simples.
Quando comecei a observar outros artistas e a ouvir as experiências de quem recebia essas obras, percebi que a confirmação podia acontecer de maneiras muito diferentes. Algumas pessoas reconheciam características da entidade retratada. Outras identificavam símbolos, cores, objetos ou informações que possuíam um sentido particular. Havia também quem preferisse não fornecer determinados dados antes do trabalho, justamente para observar aquilo que surgiria espontaneamente.
Essa necessidade de confirmação é compreensível. Quando alguém afirma que uma imagem nasceu de uma experiência mediúnica, entramos em um território que não pode ser observado apenas pela aparência final da obra.
Uma pintura não se torna mediúnica simplesmente porque parece espiritual. Um retrato de um guia, um anjo, um caboclo ou qualquer outra representação ligada ao universo espiritual pode ter sido criado por muitos caminhos diferentes. A imagem, sozinha, nem sempre conta tudo sobre o processo que a originou.
A busca por uma confirmação
Dentro de alguns contextos espíritas, especialmente naqueles em que a Pintura Mediúnica ganhou maior visibilidade pública, foram sendo observados determinados elementos como possíveis sinais de autenticidade. Entre eles aparecem a rapidez de execução, a reprodução de estilos atribuídos a artistas desencarnados, o uso simultâneo das duas mãos, pinturas realizadas de olhos fechados e retratos de pessoas desconhecidas pelo médium.
Essas manifestações fazem parte da história da Pictopsicografia e possuem importância dentro dos espaços em que acontecem. Durante muito tempo, inclusive, foram elas que chegaram com mais força ao grande público através de programas de televisão e demonstrações abertas.
Quando comecei a desenvolver meu próprio trabalho, porém, minha experiência não se apresentava dessa mesma maneira. O processo era consciente e, em muitos casos, acontecia aos poucos. A imagem podia surgir inicialmente como um esboço, uma percepção, um sonho ou uma informação que depois precisava ser trabalhada artisticamente.
Essa diferença foi importante para mim porque mostrou que não seria possível utilizar um único modelo como medida para todas as experiências. Foi também um dos motivos que me levaram a procurar outros artistas durante a pesquisa, inclusive pessoas ligadas a diferentes caminhos espirituais.
Ao comparar os relatos, encontrei modos distintos de compreender aquilo que cada um considerava uma confirmação. E foi aí que a questão começou a se tornar mais interessante.
Quando quem recebe também participa
Em alguns trabalhos, a confirmação não acontece durante a execução da pintura, mas depois dela.
Durante as entrevistas realizadas para o TCC, apareceram relatos de pessoas que encomendavam uma imagem e deliberadamente guardavam determinadas informações. A confirmação vinha posteriormente, quando reconheciam na obra detalhes que não haviam sido informados ao artista.
Esse tipo de situação também fez parte da minha trajetória. Muitas vezes, quem recebe a pintura é quem consegue relacionar determinados elementos da imagem à própria experiência, à sua história ou à maneira como percebe sua espiritualidade.
Isso cria uma particularidade bastante interessante: em determinados casos, o artista não possui sozinho todos os elementos para interpretar aquilo que produziu.
Uma cor, um símbolo, uma vestimenta ou um objeto que para mim poderia parecer apenas parte da composição pode possuir outro significado para quem recebe a obra. Às vezes essa relação é imediata. Em outras, aparece algum tempo depois.
Também encontrei artistas que compreendiam a própria percepção energética como parte desse reconhecimento. Para eles, a presença sentida diante da obra, ou a correspondência dessa sensação com aquilo que a outra pessoa também percebia, fazia parte da validação do trabalho.
São experiências de natureza diferente e considero importante não tratá-las como se fossem exatamente a mesma coisa.
Entre confirmação e certeza
Talvez uma das mudanças mais importantes que a pesquisa provocou em mim tenha sido perceber que validação não precisa significar uma prova universal.
Uma confirmação pode ser extremamente significativa para as pessoas envolvidas e ainda assim pertencer ao campo daquela experiência. Isso não diminui aquilo que aconteceu. Apenas evita que uma vivência particular seja transformada automaticamente em uma certeza que todos precisam compartilhar.
Para quem trabalha com mediunidade, considero essa distinção importante também por uma questão de responsabilidade.
Nem tudo o que sentimos precisa receber imediatamente uma explicação. Nem toda coincidência precisa ser convertida em confirmação. E nem toda imagem que surge durante um processo artístico precisa ser apresentada como uma informação absoluta.
Há momentos em que a própria experiência oferece elementos bastante claros. Em outros, o mais coerente é permitir que a pergunta permaneça aberta.
Foi também por isso que, no TCC, preferi não propor uma definição definitiva para a Pintura Mediúnica. A intenção era observar os processos, comparar experiências e identificar pontos de aproximação sem apagar as diferenças entre os artistas.
Hoje continuo pensando dessa maneira.
A validação pode acontecer pelo reconhecimento de quem recebe, por informações que encontram correspondência, pela percepção do próprio artista ou por elementos que só fazem sentido dentro de determinado contexto espiritual. Mas talvez o aspecto mais importante seja a honestidade com que cada experiência é observada e apresentada.
Porque antes de tentar convencer alguém sobre aquilo que aconteceu, é preciso compreender o que de fato podemos afirmar sobre o próprio processo.
Khalreon Ylron

